domingo, 28 de agosto de 2011

I. Todos nós somos uma insolúvel ressureição

A carne tinge-se antes do corpo é o racionalmente esperado. Não te esperava apenas, sentado no parapeito da janela. Não esperava ainda que nesse dia atravessássemos a cidade em jejum e voltássemos novamente vibrantes. Há duas formas de se amar e todas elas compreendem a necessidade do desconhecido, do inesperado. Inicialmente, designamos de arrepio. Isto é, a colisão entre dois seres humanos, que ocupam, desapropriados das leis da física, o mesmo espaço, o mesmo tempo, por outra palavras, a mesma sensação. A razão pede-lhes que parem, mas o coração extravagante, inundado por todos os cantos, ordena-lhes que partam. Nesse instante, a gravidade pesa-lhes mais nos passos. É o que sucede quando nos afastamos de algo que queremos. Quem será o primeiro a olhar para trás? A enfrentar a força do vento, a potência de dois pulmões tão precocemente inundados em saudade. Na maior parte das vezes, ninguém se volta e a memória reconstrói o outro corpo, saudando-o numa ferocidade luminosa. Amamos, recorrendo a esta metodologia, em média duas vezes por semana. E somos breves na sua exexução. Somos exactos. Às vezes, corremos pelas ruas, voláteis, desiquilibrados, suspensos por dois ou três corpos. As ruas, os bairros contorcendo-se em casas, as esquinas soberbas e cinzentas: são vestígios de uma ressequida boémia: são o canto descendente.
Chegámos. Temos ambos vinte anos e as malas abertas em forma de despedida. Lembro-me hoje deles, da saudade que carregavam aos ombros mesmo antes de se fazerem um ao outro, de serem um temporal terreno. Vendi a alma, o último símbolo não fragmentado. E quando me olhas cheiras o meu silêncio, o meu vazio espelhado em cada artéria. Herdei-lhes o ressentimento. E depois aprendi a descrença, para que pudesse atenuar a dor, para que pudesse aprender qualquer habilidade. Aprendi a esculpir feridas sem precisar de tocar o chão. Sei que o ódio é mais antigo que o amor, talvez, por isso, sejam tão imperceptíveis as suas fronteiras.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O ciclo da revolução científica: Novo paradigma

morreste-me. e eu repliquei a tua morte, fazendo das minhas mãos luto, das minhas córneas um verde passivo. exitem várias formas de se morrer e descobri que nenhuma pode ser verdadeiramente imediata para te possuir por inteiro. a potência da formação hipocampal orbitando sobre o meu sono, que é todo o meu dia. só sou capaz de amar desconhecidos, mas claro, intermitentemente. és-me tão desconhecido como qualquer um deles, o facto é que me famialirizei demais com a tua descoberta. não que me tenhas feito mais sede, apenas me encontraste saciada, céptica, curvada sobre um plano imenso. o que nos aconteceu é facilmente conjecturável, e depois se quisermos dedutível. no entanto, continuamos a construir casas, viagens, cidades, instrumentos de tempo e de vontade sobre frágeis alicerces, que poderiam ter sido construídos por duas crianças entediadas pelo calor das paixões pós-modernas. ora, vejamos o plano de hipóteses:

H0: Nunca soubemos do que eramos feitos.

H1: Nunca quisemos verdadeiramente saber de que eramos feitos.


t= 2, 43 ; p< 0.001 - Pela lógica falsificacionista, possuímos evidência empírica para rejeitar H0 e aceitar H1.



domingo, 21 de agosto de 2011

Arquétipo

de todos os lugares do mundo há poucos a que se podem chamar lugares. de todas as pedras do mundo há poucas com que possamos dormir e senti-las absorver o bom e mau de nós. de todos os campos abertos em flor, em verde, em terra, são poucos os que nos queremos deitar a ver o céu, a sentir a altura das folhas. de todos os céus cinzentos são poucos aqueles em que desenhamos nuvens, ora elefantes, ora monstros, ora pessoas desmembradas de vida. de todos os dias de chuva serão poucos aqueles em que a rua estará deserta e nos será permitido pisar um charco com força, talvez saltar. de todas as músicas que soletram os dias, que os unem numa causalidade inteira, são poucas as que não depositam nos nossos olhos memórias aquáticas, vibrantes. de todo o tempo que semanticamente se tornou passado são poucos os dias que fugiram ao curso padrão das coisas. mas estes surgem na memória enaltecidos, imponentes na sua forma. de todas as vezes que a segregação hormonal nos ditar alguém para amar serão poucas aquelas que fingiremos convincentemente amar. e isso será recíproco, mesmo que não simultâneo. de todas as casas do mundo há poucas a que se podem chamar casas.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Penso que falamos em códigos alfanuméricos
Numa espécie de língua consanguínea
Consigo ouvir-te
E sinto a raiva lavar-me o corpo

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Entropia






Uma recompensa pelo teu corpo na leve ignorância de o achares perdido, as palavras como uma religião perante um copo silenciado. Vejo-te raramente como um Mundo Novo, a incoincidência nasce nos meus antiquissímos pulsos, uma terra a afirmar-se - Aqui seria a nossa terra, donde arrancaríamos as espessas teorias, os lençóis em afluência quase nus ou vertiginosos. Acabei por me conceber argonauta, palmo a palmo o movimento e o dia, a paciência, um terceiro homem de costas equilibrando a pedra e a idade. O equilíbrio fudamental e a chuva alta prometendo telegramas, heróis empunhando sangue alheio. Sabia que quando te escrevesse todas as alas do meu sonho já não seriam frenéticas, a pobreza coroou a efervescência das folhas brancas, e com isto apenas entende como o mar pode sobrar sobre uma alma que nunca realmente embarcou. Não morras de esperança ausente - É o que diz aquele homem sofrêgo, aquele ali, atravessando o porão dez vezes, em dias em que as águas se fazem ângulos largos. Os anjos existem loucamente em declives longos é a minha face inteira que o profere, que o repete, deixando a tempestade entrar. O centro de todos os delírios lentos que já ousei escrever é um cabo, indício de aço e de tempo, no lugar que une todo o teu peito. Habito um movimento impossível, um vocábulo rumando a um quarto quadrante, onde moras há um cavalo rodopiando a tua boca. Em construção o aparato ilegível de um novo sol, sirvo-me das arestas, da fome e da potência das estrelas até à sua oficial inauguração. Se fizesse uso do mapa existiríamos recomeçando inférteis um novo desterro. Supérfula e intacta entropia, outra luta descrevendo os sentidos, o tacto das aves como ondas venosas. Onde quer que rume deduzirei outra escrita, o fogo, a terra e o corpo agora eternos, agora doentes. Eis o último vento que a língua canta, a desordem que sopraria com minúcia dentro dos olhos, procurando um horizonte milimétrico, a cura como descendência secreta. Para que não creias num poético retorno, libertarei agora o sempre por ter-se feito inútil - Eis o que não poderá mais ser retornado - alguém o gritou.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

para que reinventes um coração ou uma cruz de ventos


A memória é hoje um insolúvel rancor
que um dia trancado nas entranhas de todos os vestidos
não fará mais marcas
de todas as supernovas
poderás sorrir empoleirado numa estrela invertebrada
não haverá sinestesia
não haverá sangue por queimar
um tornozelo suando lítio
em forma de muralha permeável ao tempo
avançaremos
amantes
camaradas notívagos
num vórtice de seiva
num luto abençoado
o amor jejuará a sua imortal estação
será repetida a mesa fervida
as entrelinhas de uma oficina difusa
lembrarás
carbono e não pele
um hipocampo alugado sofregamente
por meia vida
para o bem ou mal
serei apenas
um húmido pescoço
em toda a sua amnésia
a antropografia
de uma criatura que acenderás por tantas silhuetas
demasiadas
insuficientes
amarás por repetição
serei o teu milacre fluorescente
cumprindo um corpo exilado

gira-discos