domingo, 28 de agosto de 2011
I. Todos nós somos uma insolúvel ressureição
A carne tinge-se antes do corpo é o racionalmente esperado. Não te esperava apenas, sentado no parapeito da janela. Não esperava ainda que nesse dia atravessássemos a cidade em jejum e voltássemos novamente vibrantes. Há duas formas de se amar e todas elas compreendem a necessidade do desconhecido, do inesperado. Inicialmente, designamos de arrepio. Isto é, a colisão entre dois seres humanos, que ocupam, desapropriados das leis da física, o mesmo espaço, o mesmo tempo, por outra palavras, a mesma sensação. A razão pede-lhes que parem, mas o coração extravagante, inundado por todos os cantos, ordena-lhes que partam. Nesse instante, a gravidade pesa-lhes mais nos passos. É o que sucede quando nos afastamos de algo que queremos. Quem será o primeiro a olhar para trás? A enfrentar a força do vento, a potência de dois pulmões tão precocemente inundados em saudade. Na maior parte das vezes, ninguém se volta e a memória reconstrói o outro corpo, saudando-o numa ferocidade luminosa. Amamos, recorrendo a esta metodologia, em média duas vezes por semana. E somos breves na sua exexução. Somos exactos. Às vezes, corremos pelas ruas, voláteis, desiquilibrados, suspensos por dois ou três corpos. As ruas, os bairros contorcendo-se em casas, as esquinas soberbas e cinzentas: são vestígios de uma ressequida boémia: são o canto descendente.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário