Porque nos abrimos em ciclos e eu já inventei o que vem a seguir: o não encontro, o não desfecho, um lugar a que ninguém chega nem de braços abertos nem de corpo curvado. Por o que me recordo esta é a pior fase, a de acreditar no poder da coragem, da própria escolha. A única vez que não amei, foi quando realmente amei e retirem-se as ironias a tudo o que digo, o meu coração nasceu para amar incandescentemente. Esta luz que o ergue ao vazio, talvez cegue todos os que amo, talvez seja demasiado viciante, e então repudia-se o amor, antes que ele nos prenda, nos solte de quantos nós existem. O que construíram para me colocar no lugar do coração é demasiado pesado, ambicioso, demasiado capaz. Se a vida não fosse por ciclos talvez acreditasse na possibilidade de amanhã me encontrar contigo, mas sei desde que te conheci o desfecho, já o vivi antes. Por isso, esta é só uma segunda dor, uma confirmação da fatalidade, ou talvez, fosse melhor dizer futilidade de se estar vivo. Tudo o que escrevo é na direcção do passado. Nunca experimentei tanto todas as formas de vida, de tédio, de corpo, mas sempre que vivo, faço-o na direcção do passado, sempre que fujo faço-o na direcção do passado. Há um lugar que queria visitar, mas não tenho quem me leve até lá. É um lugar onde havia uma casa em ruínas, um campo, e um horizonte, queria ir até lá e levar uma flor na mão, como quem visita um cemitério num domingo de manhã. Esse lugar merecia uma flor e um sorriso amplo, de quem não guarda mágoa, apenas essa eterna inocência de quase ter sido feliz ali outra vez. Deitei tudo o que tinha desse amor ao rio, à terra, talvez ao infinito, e hoje lembrei-me de quanto amava o verde, mesmo antes desse amor, de quanto esse amor era verde, do meu vestido verde, da saudade de alguém reparar apenas nos meus olhos e dizer que eles eram verdes e talvez também tivessem um girassol lá dentro. Enfim, aqueles que não se permitem a outra coisa senão a amar, amar em todos os sentidos, amar o feio e o belo dos outros, o fundo dos olhos tantas vezes falso, mas que pode ser reescrito se quisermos para se tornar passível de amar. Às vezes, a visão é uma dor em estado bruto, os olhos amam mais que o corpo, são eles que narram a história. E por aqui ficamos num rio que nunca te cheguei a dizer mas que nos atravessa um após o outro.
* Vasco Gato
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