quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Há pessoas que nascem com uma só pergunta a travar-lhes a respiração, cravada nos dentes. Há pessoas que pedem pouco e não percebem que pedem tudo ou tudo menos aquilo que lhes pode ser dado. Desde pequena que gostava de ver apenas uma coisa que ninguém à minha volta nunca me pôde mostrar. Vi sempre o contrário disso, a sua negação, por vezes, tão bem forjada, tão nitidamente concebida. Há momentos em que os sonhos parecem suportáveis, em que as nossas ilusões ainda são frágeis, pequenas e dóceis e ninguém se vinga de nós. Há momentos em que parece provável que um dia não doa. Quando era pequena acreditava que eles se amavam, acreditava que como nas histórias tudo ia ficar bem. Hoje quero apenas acreditar que nasci depois do amor deles. E talvez do meu. Desde pequena aprendi a pôr no lugar do coração, uma pedra, para que sempre que fosse possível pudesse apertar, pudesse envolver, pudesse novamente apertar e nada acontecesse. Aprendi a amar comedidamente, a obrigar-me a uma racionalidade que morava apenas numa parte de mim. Aprendi a engolir quando a garganta se assemelhava a um vulto quebrado, quando as mãos se abriam em farpas. Mas, no fundo sinto-me parada no cimo daquela rocha, com o cabelo negro como nunca mais terei, o meu pai estava no fundo a ver a queda de água, e eu ainda não tinha querido voar, não queria ter caído sem asas na vida. Esse lugar já não existe, construíram muros em seu redor. Um dia fui até lá e vi a minha vida toda, vi-me com aquela camisola branca, o vestido xadrez e gritei alto, não voes, vai doer. Mas ela foi em direcção ao canto, à telefonia que sempre ouviu. Ele não precisava de ser salva. Ela apenas precisava de encontrar, de refutar algo ainda não falso. Perdoem-lhe a falta de jeito, nem todas as ciências são perdoáveis, mas ela continua orfã do seu próprio destino, a meio do voo.
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