Era apenas o corpo um solene domínio, um diálogo fechado e rígido numa língua agressivamente discreta. golpearam-no de suspiros, de falácias não inteiramente construídas e partiram rumo ao seu centro sem pedir permissão, sem evocar uma lírica argumentação. dissolviam-se numa misteriosa sedução, num oco concílio de lábios que se reuniam numa propositada pressa, numa sede viciante. os braços levianos atravessavam-se, interrompiam-se, cruzavam-se e descruzavam-se num culto perturbante. ainda não seriam sete horas e já tinham purgado a alma, lavando os seus lençóis, sorvendo-lhe a ambição e o ardor doentio. as palavras escassas ardiam ao som de um cigarro não tão desnecessário como elas, não tão vagabundo. os rostos desemparelhados, amplamente vazios de cor, iam-se destacando da escuridão. o silêncio era uma conspiração de cheiros, a forma mais pertinente de se dizer o nada que se tinha a dizer. os corpos afastavam-se numa dança arrogante e decidiam sobre a probabilidade de mais um gesto húmido e frio. ele satisfeito, cumprindo-se em homem, em força, contemplando a génese evolutiva, a sua ascensão hierárquica em potência. ela aliviada do término de toda aquela odisseia, devolvia a memória ao seu estreito coração, acertando o relógio, unindo novamente os cabelos e toda a pele outrora desvinculada. não se lembrava da última vez que levara o amor até à boca, que lhe descera um arrepio pela garganta, que as suas entranhas se desfizeram numa poção ora quente, ora doce, inevitavelmente mágica. e permanecia rente à janela um pequeno pássaro azul ardendo em cinza, talvez fosse a sua consciência. certamente esta protestava, sonâmbula e ainda demasiado frágil, por se achar a descoberto, despida de convenções, de rumos. ela cobriu-se de roupa, de inocência e deitou-se sobre a vida, golpeando pela derradeira vez a alma com todos os cultos desconhecidos a que se havia permitido. e intermitentemente morreu, não descrente do amor, mas da sua sincronia, dos seus mapas pagãos ainda não inaugurados, ainda por confirmar
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