Há corpos que apenas vivem de se atravessar, de se cruzar, de se puxar uns contra os outros
Sim, falo de nós
Se me perguntares de novo
Acrescento ainda as severas personagens que nos crescem nos ombros
O semblante das árvores
Enquanto descemos a avenida
Estava parada na chuva
E usaste-me como artelharia
Numa guerra de pensamentos e sons
Curaste-me o corpo
Sol a sol
Combatendo as minhas vísceras
Embebendo em licor
Tudo o que me querias escrever
Para que doesse mais
Para que o sentisse vitoriosamente doer
Naquele dia
Disseste exorcizar
O tempo
Disseste ter descoberto que ele habitava as raízes das conchas
Depois quebraste-me a pele
Lentamente
Passando no centro denso do meu corpo
- o umbigo
Encontras as leis enumeradas
Não as leis físicas, não as pagãs
Mas as do evitamento
Do medo consciente
Que noutros lugares se chama coragem
Se chama félix
De todos os desejos
Que tiveste ao almejar o meu corpo como uma ponte
Sobrou-te
Um gesto vil e sedento
A chuva podia-nos trancar um dentro do outro
Seria ingénuo da nossa parte
Deixar que isso acontecesse
A frase que tu sentiste
E que não me quiseste dizer
Guardei-a na memória
No aquário de medusas suspenso por cima do candeeiro
- Somos demasiado pesados para existirmos em simultâneo
Havendo tantos homens por encher
Um duplo infinito pode-se tornar contável
Por isso tenhamos cuidado
Eu concordei
Ambos soubemos isso desde o ínicio
E ainda bem que não o disseste
Que não o erguestes na tua voz
Apenas terminaste
Vendo-me começar
- Tenho a sensação que nos conhecemos
- Julguei habitar-te os olhos
Mas agora seria melhor se me reduzisses ao paladar
Preciso que me olhes
Desfocadamente
Que me construas em vértebras
- Temes o perigo
- Apenas a convulsão que trazes dentro dos olhos
O pedido que me atiras do fundo dos olhos
- Será melhor ficarmos por aqui
-Volta-te tu primeiro
O adeus deve nascer da sombra dos nossos corpos voltados
Isto foi o tempo que disse
Calcando-nos em versos
Sem comentários:
Enviar um comentário