sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma cruz quebrada e um corpo a céu aberto, és-me desnecessário apenas enquanto o digo


Há corpos que apenas vivem de se atravessar, de se cruzar, de se puxar uns contra os outros

Sim, falo de nós

Se me perguntares de novo

Acrescento ainda as severas personagens que nos crescem nos ombros

O semblante das árvores

Enquanto descemos a avenida

Estava parada na chuva

E usaste-me como artelharia

Numa guerra de pensamentos e sons

Curaste-me o corpo

Sol a sol

Combatendo as minhas vísceras

Embebendo em licor

Tudo o que me querias escrever

Para que doesse mais

Para que o sentisse vitoriosamente doer

Naquele dia

Disseste exorcizar

O tempo

Disseste ter descoberto que ele habitava as raízes das conchas

Depois quebraste-me a pele

Lentamente

Passando no centro denso do meu corpo

- o umbigo

Encontras as leis enumeradas

Não as leis físicas, não as pagãs

Mas as do evitamento

Do medo consciente

Que noutros lugares se chama coragem

Se chama félix

De todos os desejos

Que tiveste ao almejar o meu corpo como uma ponte

Sobrou-te

Um gesto vil e sedento

A chuva podia-nos trancar um dentro do outro

Seria ingénuo da nossa parte

Deixar que isso acontecesse

A frase que tu sentiste

E que não me quiseste dizer

Guardei-a na memória

No aquário de medusas suspenso por cima do candeeiro

- Somos demasiado pesados para existirmos em simultâneo

Havendo tantos homens por encher

Um duplo infinito pode-se tornar contável

Por isso tenhamos cuidado

Eu concordei

Ambos soubemos isso desde o ínicio

E ainda bem que não o disseste

Que não o erguestes na tua voz

Apenas terminaste

Vendo-me começar

- Tenho a sensação que nos conhecemos

- Julguei habitar-te os olhos

Mas agora seria melhor se me reduzisses ao paladar

Preciso que me olhes

Desfocadamente

Que me construas em vértebras

- Temes o perigo

- Apenas a convulsão que trazes dentro dos olhos

O pedido que me atiras do fundo dos olhos

- Será melhor ficarmos por aqui

-Volta-te tu primeiro

O adeus deve nascer da sombra dos nossos corpos voltados

Isto foi o tempo que disse


Calcando-nos em versos


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