terça-feira, 30 de novembro de 2010
Há dias em que nos havemos de sentir sempre grandes na nossa enorme pequenez mesmo sem saber porquê. Talvez porque os outros se percam nos nossos pés, enquanto obcecados procuram as palavras claramente redigidas, os sonhos prontos a emoldurar e os problemas anexados em folhas de vida. Escolhi como modo de vida, olhá-los, manobrá-los em sentimentos, em sangue, em palavras, mas no fundo acho que fui sempre o que fiz, não vivendo numa torre de marfim, mas num castelo de poeta, apaixonando-me por todos, cantando os seus erros, a sua pele em chama, a folhagem que lhes esvai pelos olhos e cantando-me a mim dentro deles. Neste tipo de vida não se espera recompensa, espera-se longevidade arrecadando-se um pouco do sofrimento dos outros. O que se vê no fundo dos olhos, por vezes, é intraduzível, extasiante... Mas não podemos amar apenas o fundo dos olhos, há como que uma sequência de gestos, de sons. E na humanidade de cada um vemos beleza, luz, a procura de uma salvação que não existe e por isso, a admiramos incançavelmente. Esta genuina vontade de ajudar os outros, de os ver passar, de me ver voar ao lado deles, de querer cruzar-lhes o caminho, levar um pouco deles, mostrar um pouco de mim, que sou apenas a paisagem a soltar-se em anos, meses e dias. É como se cada pessoa fosse mágica, fosse sagrada, mesmo as que derrotaram o coração em vazio, já o foram, porque nasceram, porque tinham dentro de si um conjunto de potencialidades e restrições, e foi-lhes pedido que voassem, simplesmente voassem... O que mais doi são aqueles que morrem sem terem voado, aqueles que subiram à árvore, inclinaram-se e depois disseram, voar é demasiado arriscado e acabaram por cair e rejeitaram a nossa mão, e habituaram-se ao chão e não à queda, porque na queda há um voo, um pequeno voo.
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