domingo, 29 de agosto de 2010

das músicas que já não são um hino à saudade



vamos ver o passado como uma moeda de troca e se ainda trouxeres contrabando na pele, deixa-me soprar rente ao ouvido o meu nome
há dias que trago o peito em forma de mar e o silêncio devolve as páginas arrancadas do diário. a espera tornou-se um ritual, uma incisão negligentemente funda sobre o rosto
nos bolsos guardamos uma paleta de estrelas, que nunca será suficiente para alumiar uma frase, muito menos a canção que assobias na esquina de um beijo
lembro-me da certeza com que dobravas os olhos quando te deitavas sobre os folhos do vestido. as palavras assemelhavam-se a afluentes que se mordiam sobre o mesmo vento. ainda hoje temos o mesmo rio nas veias e nele molhamos a culpa.
e esse potencial desamor parecia tão improvável que foi envelhecendo na memória cada vez mais fraco, cada vez mais sábio. a nossa casa paralela às grandes árvores era segura demais. e eu perguntava-te quando chovia, quando fazia sol. o devaneio era tudo aquilo que nos fazia chorar que nos fazia ter medo.
pedi que me deixasses sentir frio, que me deixasses atravessar a razão à nossa frente, que me deixasses treinar a dor. esse teu apego pela certeza, depois de me repetires calmamente sobre o peito sonhos planos. deixaste-me adormecer e recolhestes todas as manhãs as cinzas que nasciam sobre o meu regaço. deixei as dúvidas e os amuletos sobre o chão, porque acreditava que a sorte era um pássaro azul que colocavas sobre o meu cabelo, como se me abençoasses
guardei anotações e um sonâmbulo sabor de felicidade. viste-me deitar sobre pensamentos demasiado dificeis, e hoje amo absurdamente o fácil, o fortuito, o inofensivo. essa estranha sensibilidade desengonçou-se por deslize ou aprendizagem. a música não é hoje o peso da saudade, mas de um café que voa sobre o parapeito da janela

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